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Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

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publicado às 21:44

Uma criança está à espera

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.01.14

Muitas vezes o cinema se misturou com a vida real, no tema do filme e também nas personagens-actores. Desde a primeira vez que vi A Child is waiting, ainda na televisão, percebi que não existia qualquer diferença entre a personagem e a actriz. Os olhos tristes e um pouco perdidos são da Judy Garland mas também da Jean Hansen. Vemo-la aceitar o desafio de acompanhar crianças em regime de internato numa escola especial e a descobrir um sentido para a sua vida, um lugar para si no mundo. De certo modo, o filme revela-nos uma realidade humana: todos os estranhos, os diferentes da média, os que não se encaixam no padrão convencional, acabam por se encontrar num lugar onde se entendem uns aos outros perfeitamente.

Judy Garland é comovente neste filme, há aqui uma mistura de vulnerabilidade e coragem muito raras em cinema. É certo que o realizador é Cassavetes, especialista em extrair as emoções mais escondidas e expô-las à luz do dia.

Judy Garland aqui mais criança do que mulher, porque é preciso entender a criança que fomos para entender as crianças.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 23:02

A importância da comunidade com "Meet me in St. Louis"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.13

Este é um musical de Minelli. Uma família tradicional e a simplicidade da sua existência. Há afecto, alegria e sobretudo uma cultura que eu me atreveria a caracterizar de democrática. A disciplina não se impõe sem o respeito por cada um. É assim que o pai irá reconsiderar a sua decisão de mudarem para Nova Iorque, a melhor prenda de Natal que poderia dar à família.

 

Há duas cenas magníficas e cronometrei-as, a primeira inicia-se já o filme vai a 1h:06m até 1h:16m (exactamente 10 minutos): a notícia da mudança para Nova Iorque, com a reacção de tristeza da família, em que todos perdem o apetite e deixam a fatia de bolo na mesa. O pai sente-se magoado com esta reacção e senta-se num cadeirão, a mulher vem animá-lo e traz-lhe o seu prato com a fatia de bolo. Senta-se então ao piano e toca uma canção que o marido reconhece emocionado. Levanta-se e canta. Começamos a ver os filhos e o avô a descer as escadas e, um a um, a pegarem no seu prato com a fatia de bolo e a sentar-se, a empregada incluída, ainda um pouco desconsolados. Minelli consegue dar-nos a atmosfera certa das emoções e sentimentos de cada um apenas com gestos simples do dia-a-dia de uma família.

 

 

 

 

Outra cena magnífica vem um pouco depois, a partir da 1h:34 até à 1h:45, poucos minutos antes do fim do filme, e envolve toda a sequência que se inicia com a canção de Natal à janela, a crise de revolta e desespero da filha mais nova que destrói os bonecos de neve. O pai espreita à janela, diz à outra filha que está tudo bem, desce as escadas onde já vemos a parede vazia dos quadros, senta-se de novo num cadeirão e risca um fósforo para fumar. Tão absorto está que queima os dedos. Percebemos pelo seu rosto que tomou uma decisão. Levanta-se e chama a família. Vemo-los a descer as escadas de novo, um a um, desta vez quase a correr, para saber o que se passa. Ao anunciar-lhes a decisão de ficar em St. Louis, há uma ironia nas suas palavras: vamos ficar aqui até apodrecermos. E começa a evidenciar as qualidades da cidade, sendo uma delas a organização da Feira Internacional. Todos se manifestam animados e felizes, entretanto lembram-se que já é véspera de Natal e abraçam-se. Vemos a mãe voltar ligeiramente as costas, comovida, o marido olha-a e aproxima-se, e coloca a mão sobre a sua.

 

Minelli é perfeito na atmosfera dos seus musicais. A mensagem está nos pequenos pormenores. A simplicidade da vida familiar, a continuidade das gerações, o futuro sempre presente.

As famílias saudáveis são as que mantêm essa abertura para a passagem do tempo, a mudança, um novo equilíbrio. Embora esta família acabe por ficar na sua cidade e na comunidade que conhece, está virada para o futuro.

Não é o medo da mudança que os mantém ali, é a noção de que em Nova Iorque se sentirão desenraízados, isolados (e os nossos amigos?), a sua qualidade de vida será afectada (pessoas como nós não poderiam manter uma casa com jardim em Nova Iorque, teríamos de viver num andar).

 

Hoje quantas famílias desejariam ficar na sua cidade, na sua comunidade, e mesmo no seu país, se tivessem essa possibilidade? É certo que hoje já se comunica melhor à distância, no tempo do filme só há o telefone de casa, mas nada substitui o convívio afectivo e social.

 

 

 

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publicado às 20:53

"Easy to do justice, very hard to do right" (The Winslow Boy)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.05.13

Não sei porque fui escolher para hoje, dia 13 de Maio, um dia com tanto significado para mim e no meu mês preferido, The Winslow Boy. Vi-o recentemente num dos canais de televisão e registei de imediato as magníficas representações, a realização sóbria e elegante, os diálogos nunca aborrecidos, antes ricos de significado. O tema é inspirador e comovente: uma família gasta as suas poupanças na defesa em tribunal da inocência do seu elemento mais jovem, um cadete da Marinha, acusado de roubo.

 

 
 
 
Perto do final, vem uma das lines que me ficou desde logo registada na memória: Easy to do justice, very hard to do right.
Em tempos em que não vemos nem justiça nem o bem, estes filmes inspiram-nos e consolam-nos.
A percepção de justiça é por vezes subjectiva, mas a percepção do bem é universal: todos sabem instintivamente se o que estão a presenciar é o bem ou o mal, se prejudica ou beneficia, se constrói ou destrói, se acalma ou agita, se anima ou desespera.
 
Há outras razões para ter gostado tanto deste filme. Estamos em 1910 e as mulheres ainda lutam pelo seu direito ao voto e à participação cívica. A nossa heroína, irmã mais velha de dois irmãos, colabora activamente no movimento. Quando o advogado lhe diz que talvez se voltem a ver, na Câmara dos Comuns?, na galeria?,ela responde: na Câmara dos Comuns, mas não na galeria... à sua frente.
Às vezes tento imaginar o que diriam as nossas antepassadas da participação das mulheres hoje no nosso destino colectivo. Sentir-se-iam orgulhosas?, ou ficariam escandalizadas com a imitação da lógica do poder masculina?
Distinguirão sequer hoje, homens e mulheres, entre o que é fazer o bem e o que é fazer o mal?
 
 

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publicado às 19:45

Os meus heróis: Fredric March, o melhor "chefe de família"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.08.10

 

Inicio hoje uma série de posts sobre os actores na pele das personagens que mais me impressionaram, e pelas respectivas razões. A lista é longa e não há propriamente preferências. Dedicar-me-ei para já aos actores, depois lá irei às minhas heroínas (actrizes e personagens femininas).

Esta série tem uma razão infantil: eles foram (e ainda são) os meus heróis. É neles que primeiro penso quando procuro uma referência sobre uma qualidade humana, e aqui não distingo homens ou mulheres. Por exemplo, "melhor chefe de família" (ui!, pecado mortal, machismo aceite por uma mulher!): Fredric March.

 

Fredric March vi-o pela primeira vez no The Best Years of Our Lives e ficou logo ligado a esse papel para sempre. O pai de alguém. O marido de alguém. Mas também o major numa guerra lá longe, que defende os seus homens (liderança). E que agora volta a casa, receoso do regresso (readaptação à vida civil digamos assim). E o bancário que percebe qual é o verdadeiro collateral (garantias) de cada cliente: o seu potencial e capacidade de trabalho.

 

A seguir, pela ordem temporal dos filmes que vi, as várias personagens:

- um poeta, Robert Browning, que respira saúde e vitalidade por todos os póros, a contrastar com uma Norma Shearer (Elizabeth Barrett) pálida e fraquinha, que consegue libertar da prisão dourada do pai tirano (Charles Laughton).

- um executivo ambicioso, Loren Phineas Shaw, em mais um magnífico Robert Wise. Habituada a vê-lo do lado das qualidades que valorizo, estranhei esta personagem, claro está. Mas Fredric March está perfeito nesta pele, dá-lhe a ambiguidade humana, a complexidade humana.

- um corsário astuto, arrogante e vaidoso, Jean Lafitte, que acima de tudo quer comprar a respeitabilidade na melhor sociedade de New Orleans. Um Cecil B. DeMille. Este vi-o esta semana, por isso está fresquinho. Fredric March veste muito bem o papel da liderança, tem a pose, a atitude, a genica. O traço protector também já lá está, aliás, já o vimos no Robert Browninig. A rapariga que o adora é tratada de forma paternal. Esse pormenor funciona muito bem no filme. É mesmo enternecedor (novo pecado mortal... ups!)

- e finalmente, ainda ontem, um pai de família, tal como em The Best Years of Our Lives, mas no meio do maior pesadelo: a família é sequestrada por três criminosos fugitivos. Daí o título sugestivo: The Desperate Hours. De novo William Wyler, o realizador que melhor percebeu o papel perfeito para Fredric March.

 

Este The Desperate Hours mantém-nos suspensos até ao fim. Outra coincidência interessante: impossível não ver o paralelo, neste Humphrey Bogart-Glenn Griffin, com o Duke Mantee da Floresta Petrificada. Em ambos, espera pela namorada. E em ambos, é apanhado devido à espera. Aqui, a espera também está ligada ao dinheiro (que a namorada lhe deveria trazer) e à vingança pessoal (o polícia que o prendera e lhe deixara uma marca no maxilar).

 

O ritmo do filme é perfeito. Tudo se desenrola aparentemente de forma normal, mesmo na maior anormalidade. A tensão vai aumentando. O perigo também.

Percebemos, antes mesmo das personagens, o drama que se irá seguir. Ao mostrar em simultâneo as diversas cenas e as diversas personagens, associamos acontecimentos que os próprios envolvidos não podem prever ou sequer imaginar. Este é um dos recursos mais importantes da linguagem do cinema (também usado na literatura) e dos mais eficazes na construção de uma tensão, intensidade emocional, que pode ir do medo ao terror. Aqui é mais uma angústia, a expectativa, as fracas possibilidades de fuga.

Os planos cuidadosamente elaborados, luz e sombras bem definidas, a reforçar o ponto de vista de cada personagem. Reparem bem na cena final, a família finalmente reunida, o namorado da filha fica para trás e nós com ele, na sombra. Tal como ele, esperamos pelo sinal do pai da namorada para se ir reunir à família. Vemo-lo então (emocionados) a aparecer à porta de casa, a fazer-lhe sinal. Magnífico suspense até ao fim (the end).

E a atmosfera dos filmes desta década (50) e da seguinte, nunca me cansarei de o dizer, é única. Casas luminosas e tranquilas, onde uma vida simples se desenrola, um quotidiano sem história a não ser a história humana natural, cresce-se, constrói-se o seu próprio espaço-tempo, vem uma nova geração, repete-se o ciclo.

 

A família como grupo unido na adversidade. Numa década (anos 50) que nos habituou a filmes de adolescentes rebeldes e de pais inseguros (antecipando-se em 2 décadas a tudo o que nos aflige por cá), é quase reconfortante ver uma família funcional. Um miúdo de 9 anos a querer ser tratado como um homem. Uma jovem a proteger o seu espaço e o seu tempo. E pais que sabem promover essa autonomia, ainda que com algumas reservas e resistências. E que na hora da verdade estão todos unidos, um por todos e todos por um.

 

Nas horas de maior perigo, ao pai está reservado o papel mais difícil. Terá de pensar rapidamente, todos os segundos contam, qualquer deslize pode ser fatal, como o avisa Griffin. Avisar a polícia está fora de questão. A sua prioridade, como dirá no final ao detective, é proteger a sua família. Para isso faz um acordo com Griffin, a haver alguém a servir de refém que seja ele.

Há momentos em que se terá de impor (autoridade), mas não atribuímos isso a nenhum tique machista ou autoritário. Há a idade (sim, aqui conta), a experiência (a selva lá fora), e a noção clara que ele é quem melhor se pode movimentar nesses cenários.

A sua autoridade (liderança) não se impõe pela força, mas pela razão, pelos argumentos. Forma uma equipa com a mulher - partilham informação, ouvem-se mutuamente, respeitam-se - e depois decide, pesando bem todas as hipóteses.

 

É esse o papel do "chefe de família", expressão que pode perfeitamente escandalizar os pós pós modernos actuais. É que eu não sou nada moderna, no sentido da actual ausência de regras, de prioridades, de sensatez. Assim como não sou nada tradicional, no sentido do conformismo e da rigidez, bafio que ainda conheci. Admiro as qualidades humanas intemporais, é só isso. E sim, aprecio muito a maturidade, a sabedoria, as rugas, esse mapa da vida.

 

 

 

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publicado às 20:00

O Natal e o amor genuíno

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.09

 

O Natal sugere-nos autores como Charles Dickens, Hans Christian Andersen, Oscar Wilde...

E filmes como os Capra ou alguns musicais: Meet me in Saint Louis, por exemplo, que em breve aqui quero colocar a navegar... ou o eterno Música no Coração...

 

Este Natal dou por mim a lembrar-me de cenas de filmes que em princípio nada têm a ver com o tema que procuro, mas que os meus neurónios insistem em associar. E é assim que hoje me surge o Tennessee Williams e o Richard Brooks em Gata em Telhado de Zinco Quente.

Um patriarca poderoso, uma família a gravitar à sua volta, mulher submissa e primogénito obediente incluídos, duas noras, uma ambiciosa, outra realista.

Um único elemento foge ao seu controle: o filho mais novo, o seu bem-amado.

Podem questionar-me, o que é que isto tem a ver com o Natal, que eu direi: Tem tudo. Uma família, conflitos de interesses, discussões, lutas pelo poder. E a possibilidade, milagrosa, da comunicação entre um pai poderoso e um filho falhado.

Há aqui de certo modo a repetição da Parábola do Filho Pródigo, mas em que este filho se torna a solução de todo o dilema da linguagem do poder, quando o poder se desmorona.

 

A cena-chave é a conversa pai-filho na cave da casa, já perto do final do filme. Por esta altura, já todos sabemos (menos o próprio) que o patriarca está muito doente, que os resultados dos exames médicos a que se submetera tinham confirmado o pior.

Também sabemos que o filho mais velho, instigado pela mulher ambiciosa, prepara o terreno para suceder ao pai nos negócios e na gestão da propriedade. Vemos desde o início a forma sistemática de apropriação do poder, em que tudo é jogado ao milímetro, usando os próprios filhos (e são muitos e barulhentos) como animais de circo amestrados.

A mulher realista, aplica-lhes um nome que lhes cai na perfeição: no neck monsters. Avisa aliás o marido da sua situação vulnerável e em clara desvantagem em relação ao irmão: tornara-se um alcoólico e não têm filhos.  (1) Acorda-o para a sua própria realidade: como irá sustentar o vício se o irmão tomar o controle de tudo? Sei o que é ser pobre, diz-lhe também. Vemos como esta mulher defende o marido das críticas da cunhada e como utiliza as únicas armas que tem: a capacidade de agradar aos homens, é jovem e bonita. Sabe, e di-lo ao marido, que o Big Daddy gosta dela.

Sim, por esta altura também sabemos que a mentira se instalou naquela casa. E o cerco começa a fechar-se à volta da mulher submissa, da que toda a vida vivera na sombra do patriarca, que a ele se dedicara, mesmo que negligenciada. É aqui que percebemos a diferença abissal entre as noras: a ambição mesquinha e a defesa de um lugar legítimo. Na ambição mesquinha não há lugar para o respeito, a sensibilidade e a compaixão. Atropela-se tudo e todos pelo caminho.

A cena-chave surge mais ou menos por aqui. O Big Daddy refugia-se na cave e é aí que enfrenta a verdade pela primeira vez. A verdade que se recusa a aceitar no início. Mas que as dores cada vez mais fortes lhe vão revelando. E finalmente, a frontalidade do próprio filho.

 

Porque gosto tanto desta cena? E porque a associo ao Natal? Aí vai:

Este filho, alcoólico, desportista falhado, mostra ao seu pai, poderoso e dominador, que a verdadeira força está no amor genuíno e não nas coisas que lhes dera.

É nesse desespero do filho, a partir objectos de viagens pela Europa, que o pai finalmente percebe a diferença: You owned us! é bem diferente do amor que ele próprio tivera em miúdo.

É isso que finalmente percebe quando pega na única coisa que o seu próprio pai lhe deixara, uma velha mala, uma velha mala, insiste, e um velho uniforme.

Mas o seu olhar ilumina-se imediatamente ao falar do pai, daquele velho vagabundo, e da felicidade desses anos juntos, da alegria do companheirismo, do amor genuíno.

 

Às vezes temos de ir às origens, à raíz, escavar emoções e sentimentos, o essencial de nós. Pode ter sido fugaz, breve, e muito longínquo, mas é isso que conta, a base de tudo, a nossa razão de viver. Só a partir daí é possível enfrentar a morte próxima, ou o fracasso e a cobardia.

O realizador deu esta tónica ao filme. O Big Daddy sai da cave determinado a viver os últimos dias que lhe restam de uma forma significativa. E o filho liberta-se finalmente do seu próprio pesadelo e deixará de rejeitar a mulher.

 

Não era esse o final que o Tennessee Williams queria, nem era essa a tonalidade da peça, segundo o que percebi num documentário. Mas eram os anos 50. (2) E também o que me prende ao filme não é essa perspectiva de análise possível das personagens. O que me prende ao filme é a discussão pai-filho naquela cave.  (3)

 

 

 

(1) Elizabeth Taylor aqui talvez no seu melhor papel de sempre, mulher sensual e insinuante, que o marido rejeita. A sua insistência mostra a sua força interior. É bem verdade que esta mulher tem vida dentro de si, como lhe dizem na cena final do filme.

(2) De certo modo, esta peça de Tennessee Williams é muito actual, numa altura em que se fala da forma mais ignorante, artificial e espalhafatosa das complexidades individuais, em que se reduz a identidade de alguém às suas opções pessoais de vida. Na peça há uma clara referência à homossexualidade recalcada do filho alcoólico e da sua relação com o amigo que se suicidara. Esta perspectiva da personagem é mais verosímil do que a apresentada no filme e não me admira nada que o Tennessee Williams tenha ficado decepcionadíssimo com as cenas finais. Mas como disse ali atrás, eram os anos 50, os anos moralistas do cinema.

(3) É também o meu papel preferido de Paul Newman, de copo na mão, no papel de desportista falhado, de desistente da vida. Embora tenha de reconhecer que poucos são os papéis que representou que eu não tenha adorado!

 

 

 

 

 

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publicado às 21:27

Sobre últimas oportunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.09

 

Não sei porque é que este filme despretensioso me lembrou o Natal. Nem é uma comédia romântica. Talvez porque fala de amor e de família. Famílias desfeitas e sonhos transformados em desilusões.

Last Chance, Harvey. Um aeroporto e Harvey a entabular conversa com a passageira do lado. Que lhe diz sem-cerimónia que precisa de dormir para estar em forma quando chegar a Londres. Harvey em Londres, a fugir de um inquérito incómodo e, sem saber, da mulher que lhe irá salvar o dia. Harvey no hotel, sozinho, o resto da família reunira-se na casa da filha. Harvey a tentar salvar o emprego na agência de publicidade onde compõe jingles e a ouvir a frase, Last Chance, Harvey. Harvey no primeiro encontro com a filha, pouco à vontade, e a enfrentar a ex-mulher e o marido, e um casal que não voltara a ver desde o seu próprio casamento. Harvey a consolar-se no bar e a ser humilhado pela ex, a quem diz sempre me fizeste sentir como lixo. Harvey a ouvir a filha dizer-lhe que vai pedir ao padrasto para a levar ao altar. Harvey a dizer-lhe, quase a chorar, que não irá ficar para o copo de água, que só estará na cerimónia, pois tem um encontro de trabalho importante à sua espera.

 

Dia seguinte. Cerimónia e partida para o aeroporto. E aqui tudo se altera, o trânsito está entupido, o que implica um atraso providencial (para Harvey). Perde o avião e ainda ouve o veredicto do responsável da agência, Acabou, Harvey, foste dispensado. De novo a consolar-se no bar. E é então que repara na mulher que lê numa mesa ali perto. Mete conversa naturalmente, pede-lhe desculpa pela indelicadeza do dia anterior, quando lhe fugiu e ao questionário. Ela aceita mas continua a fixar o livro. Harvey, falador, não desiste. E explica-lhe que teve um dia péssimo. Ela diz-lhe o mesmo, o seu dia não fora melhor. Mas depois de o ouvir, confirma: o dele fora pior. Acabam a conversar como velhos conhecidos. E é mesmo isso que são, duas pessoas que se reconhecem, que se entendem, que dizem a verdade. E, no caso dela, sem papas na língua.

 

Paralelamente, vemos a vida desta mulher solitária, que aceitou quase naturalmente a desilusão do amor, e que só se lembra disso porque a mãe insiste em vê-la casada. Aliás, a relação com a mãe parece mais de dependência da mãe do que necessidade dela. Como dirá mais tarde a Harvey, na caminhada para a sua aula de escrita criativa (sim, Harvey pendurou-se, acompanhou-a à aula para continuar a conversar), Passei a ser a ocupação da minha mãe. Mas faço aqui rewind para o dia anterior dela: um encontro preparado por um casal de amigos, com um homem mais jovem, que ao ir ao balcão do bar pedir o vinho, acaba por encontrar duas amigas e esquecer-se dela.

 

Como é que ela salva o dia a Harvey? Ao ouvi-lo falar da filha e de como se estavam a afastar irremediavelmente, ao ter-se sentido sempre diferente delas, envergonhavam-se de mim, ao ver que já não fazia parte daquela casa, sentia-se um falhado, nem sequer fui um bom pai. É então que o convence a ir ao copo de água, que é o casamento da filha, tem de ir.

 

São estas últimas oportunidades, um encontro que parece casual mas que altera todo um percurso, a certeza de haver ligações familiares que são fundamentais, que equilibram e colocam tudo no seu lugar, e que há momentos em que temos de estar presentes, mostrar o nosso afecto genuíno, estar ali.

 

 

 

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publicado às 22:36

A vida das mulheres num mundo essencialmente masculino

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.06.09

 

No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).

Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.

De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.

Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.

Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.

 

Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campoinglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.

 

Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...

 

Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.

Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.

As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.

E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.

É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!

É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.

 

Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:

- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;

- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;

- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;

- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;

- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...

 

Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...

Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.

 

Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...

 

 

 

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publicado às 00:51

O olhar acusador que reduz e anula

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.12.08

 

Baby the Rain Must Fall: Um homem inquieto, ainda rapazinho no fundo, embora com mulher e filha e um currículo de delinquência. Período de liberdade condicional e também de recuperação (condicional) da jovem família.
Genial é a forma como se filmavam, na época, estas histórias, de vidas simples. Os planos, as sequências, o poético preto e branco... Já não se filma assim. A casa de uma família a tentar recuperar, inicialmente tão solitária naquele campo perto da estrada, onde a pouco e pouco se vão plantando árvores e até um pequeno jardim. Como se estivessem a “fazer o ninho”. Gestos que dizem tudo. A simplicidade dos gestos.

A comunidade é acolhedora para a jovem família: há um homem amável, que os ajuda a instalar-se; há uma mulher maternal que ficará com a criança na ausência da mãe, quando esta encontra trabalho; e uma colega que lhe explica como tudo funciona e a quem ela fala da sua frágil esperança.


A liberdade condicional é um período de transição para uma vida responsável, que o homem não está preparado para assumir. Há nele uma rebeldia adolescente: recusa-se a voltar a estudar e quer manter-se a tocar na banda, mesmo contrariando as indicações da mulher que o criou.
A mãe adoptiva deste homem representa aqui o poder rígido, que não dá uma segunda hipótese, o olhar hostil e reprovador que reduz e anula. Dizemos que este poder distante deixa uma pessoa sem saída. E é o que acontece a este homem. Interioriza esse papel de rebelde e fica colado a ele. Mesmo sabendo que está a pedir sarilhos.


Impressionante como um simples plano nos pode mostrar a forma como este homem se sente intimidado e até ameaçado por um poder que interiorizou, que a mulher idosa ainda exerce sobre si. A forma como olha para aquelas escadas na penumbra, paralisado de medo, gelado por dentro. Nesse preciso momento ele é a criança que foi, sempre esmagado pela sua acusação. Vemos, naquela expressão (é o papel de Steve McQueen, a meu ver) um homem encurralado.


Escadas que se sobem = metáfora para o poder que sobre nós se exerce (ou que nós aceitamos?)
Já em The Little Foxes havia um plano magnífico com escadas. Vemos a mãe dominadora lá em cima e uma jovem, aparentemente frágil cá em baixo. Mas a jovem não sobe as escadas, está de saída. Mesmo quando o plano muda, e é filmada de cima, vemos na sua expressão a recusa em aceitar o domínio da mãe, a afirmação da sua autonomia. Aliás, inverte-se a situação: a mãe é a frágil, afinal, a dependente, a que precisa de manipular.
Aqui não. O homem paralisa. O homem está para sempre marcado por essa acusação constante.


Terrível o olhar acusador da velha mulher que o criou! Mesmo no fim da existência, aquela reprovação final: Não prestas. Que ele aceita como um veredicto. Mas não com alívio. Porque esse veredicto fica a massacrar-lhe a vida. Para ele, a morte daquela mulher acusadora não o liberta. Por isso encontrá-lo-ão uma noite, no cemitério, absolutamente desesperado, a destruir as flores da campa.


A esperança de um segundo fôlego para a família recentemente reunida perde-se. É o rosto de um rapazinho vulnerável e assustado que a mulher irá visitar à prisão. Será também uma lógica infantil que o inspirará a fugir, quando o deixam despedir-se da filha.
Tão poético aquele final, uma mulher que leva a mala para o carro, uma casa que fica vazia, uma árvore ali plantada como a esperança de uma família em vida nova... esse plano da pequena árvore é absolutamente fabuloso. O homem adulto e amigo, e que os ajudara nessa fase de adaptação, ajuda-as agora na mudança para um novo lugar. Por coincidências desta vida, ainda se cruzarão com o carro da polícia que transporta o marido preso.
A mulher aceita tudo filosoficamente (fabulosa Lee Remick!) e brinca com a filha: Somos muito viajadas...


É este o cinema-arte que me prendeu, também a mim, para sempre. A linguagem dos simples gestos, de diálogos depurados, de planos poéticos, e tudo a preto e branco. É a época dos sentimentos e das emoções, dos conflitos interiores e das questões morais. As personagens têm a dimensão humana: alegria, sofrimento, medos, angústias, esperanças... a sua fragilidade e a sua incrível coragem.
A forma filosófica como se encara um amanhã incerto. Esta é a eterna beleza do cinema, lembrar-nos que (ainda) somos humanos, (ainda) não cortámos as raízes, (ainda) nos comovemos com a vida.


Quanto à personagem-“homem rebelde”, o eterno adolescente inquieto: teremos de o ver pelo ângulo daquele olhar e daquelas palavras que não deixam escapatória: Não prestas. É assim que se formam lógicas de percursos auto-destrutivos. Quando o poder se afirma assim, de forma rígida e absoluta, não dá qualquer hipótese ao outro de se redimir ou escolher outro percurso.

 

 

 

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publicado às 09:05

Quando o Cinema antecipa a História

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.11.08

 

Guess Who's Coming to Dinner está carregado de significado histórico. Foi o último filme com o par mágico Katharine Hepburn-Spencer Tracy. E antecipou, de forma curiosa, a eleição de um Presidente-síntese racial e síntese cultural.

Só neste fim-de-semana, ao revê-lo no canal Hollywood, reparei que, no próprio filme, no diálogo entre o pai da rapariga (Spencer Tracy) e o médico com quem ela quer casar (Sidney Poitier) esse acontecimento é antecipado no plano do possível e de um optimismo (da rapariga):

Joanna diz que os nossos filhos podem até vir a ser Presidentes...

Um pouco adiante o pai da rapariga diz: Talvez daqui a 50, 100 anos...

 

Sim, o filme antecipa já novos tempos para a América...

Quase consigo imaginar o escândalo que o tema terá despertado na altura em muitas mentes fechadas. E não apenas na comunidade branca, digamos assim. Também o filme refere isso: a resistência àquele casamento é uma resistência das  duas comunidades (e inclui Tillie, a empregada que está naquela família há mais de 20 anos e quer proteger a sua menina).

Estava-se em 1967. E o mais fascinante dessa época é a incrível frescura de um certo Cinema, e de uma parte dos intelectuais, que contrasta com uma outra parte muito agarrada a tradições e preconceitos.

 

Mas voltemos ao filme: a resistência das duas comunidades. Como em Tillie, que assimilou, sem questionar, que uma coisa são os direitos civis. Outra, muito diferente, o que se passa aqui...

Essa resistência não é igual no lado feminino e no lado masculino. No lado feminino, esta resistência é só no primeiro impacto (fabulosa Katharine Hepburn!), pois são mais rápidas e flexíveis na aceitação da situação. Ou porque vêem e sentem o afecto genuíno daqueles dois, os fortes laços que os unem.

A resistência masculina permanece até ao fim (do filme, entenda-se).

Magnífico diálogo entre o pai da rapariga e a mãe do médico em que ela, apesar de perceber a sua motivação (dele) proteger aqueles dois, não via que iriam sofrer muito mais se não pudessem ficar juntos. E diz-lhe com lágrimas na voz: os homens, quando envelhecem, esquecem-se do amor que sentiram quando jovens...

É esta simples frase que mais impacto terá no pai da rapariga e que lhe dará o mote para aquele monólogo final, que é de cortar a respiração e de nos deixar arrepiados, porque é sobre aqueles dois mas também com aqueles outros dois: Spencer Tracy e Katharine Hepburn. É nesse monólogo que diz lembrar-se perfeitamente desse amor enquanto jovem, desse amor ainda vivo. E esta frase fica no ar: Se vocês sentirem um pelo outro metade do que nós sentimos, valerá a pena.

 

Ainda não lhes dediquei um texto neste rio sem regresso. Como foi isso possível, se têm sido uma das minhas maiores referências?

 

Mas hoje é da antecipação da História, e de Sidney Poitier que vou falar. Porque vi, há uns meses um documentário no canal ARTE e o papel simbólico de Sidney Poitier nesta mudança anunciada. Um papel de continuidade histórica também.

Sidney Poitier sabe que as anteriores gerações de actores afro-americanos lhe abriram um caminho, que ele continua. É como se lhe preparassem a possibilidade de dar o passo seguinte: de personagens com profissões subservientes (amas, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, recepcionistas de hotel, moços de recados, etc.) para personagens com profissões com formação académica e socialmente mais influentes.

Interessante observar como também em Guess Who's Coming to Dinner vemos já uma diferença de postura e de atitude nas duas gerações. Uma, a do pai do médico, que teve ainda de lutar, numa sociedade que lhe lembra todos os dias a sua condição de "negro", para investir numa vida melhor para o filho. E outra, a do filho, que interiormente reformulou essa imagem social, para se afirmar noutra dimensão: a sua condição de homem, acima de tudo.

Também esta ideia de continuidade de um percurso cultural, de uma evolução de mentalidades está no filme:

No diálogo do médico com o seu pai, este, para o dissuadir do casamento, tenta o argumento da cobrança afectiva e lembra-lhe todos os anos de sacrifícios e privações para que ele pudesse ter um futuro melhor. Mas sem resultado. O filho responde-lhe à letra, que o que o pai fez por ele é o que um pai faz pelo filho, é o mesmo que ele próprio fará pelo seu filho. E por fim resume, no olhar e numa frase, tudo o que sente naquele momento: Eu amo-o, é o meu pai. E por isso só espera que o pai aceite a sua felicidade.

 

Sidney Poitier é um homem inteligente e com uma forma insólita e desarmante de abordar a questão racial. Em parte  porque não nasceu na realidade americana. Como ele próprio referiu no documentário: Na América os afro-americanos são uma minoria. Mas nas Caraíbas, somos a maioria da população.

Por isso, quando o questionaram sobre o seu fraco papel no activismo afro-americano, respondeu: Continuam a tentar reduzir-me a essa dimensão, a minha negritude. Mas essa é apenas uma das minhas facetas. Além de tudo o mais, sou um homem, sou um cidadão americano, tenho uma determinada personalidade, uma intervenção e uma história.

 

 

 

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publicado às 12:16


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